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News - 29.06.10

IN VINO VERITAS

Escadaria para o céu. Por Christovão Oliveira Junior, quem recentemente visitou na Argentina.

No avião, voltando da Argentina alguns dias atrás, pensava sobre a qualidade do vinho argentino e também na previsão do crítico Robert Parker de que até 2015 a uva malbec seria uma grande estrela internacional. Segundo ele, os vinhos, naquela altura, deverão estar majestosos, profundamente complexos e com preço razoável. Para ir direto ao ponto, penso que essa previsão, feita há alguns anos, teve o dom de antever um futuro que talvez esteja mais próximo do que o previsto. 


Depois de visitar a Patagônia e Mendoza e de ter tido a oportunidade de participar de uma degustação com os vinhos da região de Salta, bem no Norte do país, posso garantir que fiquei marcado por algumas belas constatações sobre a Argentina vitivinícola. A primeira delas é que hoje se faz ali o verdadeiro vinho de terroir. Produtores, enólogos e vinicultores tratam seus vinhos como produtos de um meio que engloba solo, subsolo, insolação, inclinação, orientação geográfica, quantidade de água, altitude e, principalmente atitude, ou seja, a atuação do homem na sua elaboração. Já não existe mais simplesmente um Malbec argentino, mas sim um Malbec de La Consulta, um de Altamira, outro do Alto Vale do Rio Negro, outro de Cafayate, um do Vale do Uco e assim por diante. A compreensão da interação da vinha com o seu berço é algo cada vez mais profundo e mais impactante na elaboração de vinhos que são mais complexos, melhores e mais capazes de refletir características específicas de cada um desses locais. 

Aliado a isso está a presença de enólogos e viticultores cada dia mais capacitados e mais interessados em desenvolver um trabalho distinto e de altíssima qualidade. Pessoas que têm em mãos recursos cada vez mais modernos, mas que não se esquecem de práticas tradicionais que podem ajudar na qualidade do produto. 
Hoje, podemos encontrar em toda a Argentina um misto de grandes empreendimentos, que produzem milhões de garrafas por ano, e pequenas bodegas de produções muito pequenas; quase todos, cada um à sua maneira, buscando acima de tudo a qualidade. Poderia mesmo dizer que encontrei ali algo muito similar a um tanque de fermentação, no qual podemos ver um processo inicialmente “tumultuoso”, mas cujo resultado final é uma bebida tranquila, complexa e rica em aromas e sabores. 

A Argentina vem atingindo uma incrível maturidade na elaboração de vinhos que podem ser considerados de qualidade mundial. A verdadeira inundação de Malbecs no mercado americano é uma prova. Outra são as constantes reportagens sobre essa casta nas mais importantes revistas mundiais. Nelas, as avaliações dos principais vinhos desse tipo sempre alcançam notas antes reservadas apenas para garrafas do chamado “velho mundo”. 

Outro ponto importante é que esse processo não tem um fim visível. Novos projetos são uma constante em todo o país e o interesse de produtores e enólogos da França, Itália, Espanha e Portugal continua, de forma crescente. Uma das mais respeitadas enólogas argentinas, Suzana Balbo, acredita que ainda existe espaço para a plantação de cerca de 10 mil hectares de malbec, número que implica a produção de dezenas de milhões de garrafas. 

Não por coincidência, desci do avião cantarolando uma música de um grupo de rock chamado Led  Zeppelin cujo título é Escadaria para o paraíso (Stairway to heaven). Confesso não saber ao certo em que ponto da escada a Argentina se encontra. Entretanto, sobre seus produtores recorro a palavras de Robert Parker para expressar uma certeza: eles, a cada dia, evoluem “na enorme responsabilidade de trasladar a essência do espírito e do terroir do vinhedo para vinhos, de modo a dotá-los com o inegável sabor e complexidade que a Argentina tem”.